INTRODUÇÃO
A Revolução Industrial transformou a sociedade que passou a pensar: produção em massa, destruição em massa, cultura em massa, educação em massa, sociedade de massa. O aumento da produção em aproximadamente 50 vezes, acelerou os processos e fracionou os trabalhos onde o especialista tinha um grande destaque, repetindo processos, robotizando suas ações. Chaplin retratou bem essa Revolução quando produziu Tempos Modernos em que mostrava um trabalhador repetindo suas ações, automatizando processos, o mundo em si, atordoado com aquelas mudanças, numa velocidade que muitos não conseguiam acompanhar.
O que podemos então pensar de um pequeno artefato de areia em que em apenas 25 anos aumentou a sua capacidade operacional em mais de 1000 vezes em que a cada 18 meses duplica a sua capacidade?
Estamos passando por uma nova Revolução, uma revolução silenciosa, que muitos ainda recusam-se a ver, e que está a cada dia incorporando em nossos dias, tanto no trabalho quanto em casa.
Ainda hoje, no início do século XXI, refletimos sobre algumas mudanças ocorridas há alguns anos atrás, como o automóvel e o avião que reduziram as distâncias, o telefone que trouxe um novo paradigma nas comunicações, a bomba atômica com sua capacidade de destruição amedrontadora, o rádio, a televisão, o telefone celular, a Internet entre outras que hoje já fazem parte da nossa cultura.
Segundo Aldo Wandersman se fizermos um ranking das mais importantes invenções humanas, o chip estará no topo.
Com o chip houve uma redução dramática no custo da produção da informação, permitindo o nascimento de uma sociedade baseada em conhecimento, sociedade ainda em processo de mutação e adaptação dessa nova revolução digital, rompendo com paradigmas hierárquicos e sociais, com inúmeras possibilidades em cada um de seus milhões de circuitos.
Esse avanço constante alterou a vida da sociedade e o seu comportamento. Por exemplo: Quem poderia imaginar há alguns atrás a Dona Benta, simpática personagem do Sítio do Pica-pau amarelo, história criada por Monteiro Lobato em 1922, lendo e-mails dos netos, procurando receitas via internet, utilizando celulares. A novela seguiu o caminho contrário de muitos acontecimentos onde uma obra de ficção científica torna-se realidade, nesse caso, a realidade alterou o cenário da ficção?
“São 11h30 e a televisão exibe um episódio da nova série do Sítio do Pica-pau Amarelo. Nele, Dona Benta toma um gostoso café da manhã preparado por Tia Nastácia. Em seguida, corre para checar se os netos, Pedrinho e Narizinho, mandaram notícias por e-mail. Antes do almoço, navega na internet. Em sites de culinária, encontra uma receita para fazer quando eles chegarem. Seja sincero: você era capaz, há um ou dois anos, de imaginar a célebre personagem tão ligada às inovações tecnológicas? Pois é, o mundo mudou. Aliás, está mudando. E muito rapidamente.1”
Infelizmente o quadro hi-tech que alterou o cotidiano dos personagens, ainda é algo distante para maioria da população brasileira, que em muitas localidades não possui acesso sequer a energia elétrica, então como usufruir maravilhas tecnológicas se muitos nem conseguem utilizar os mais simples eletrodomésticos?
Existe, porém uma realidade onde poucos privilegiados podem até acessar a internet pela geladeira, utilizar o computador dentro do seu lar, trabalho, este cidadão consegue usufruir todo um manancial de conteúdo, tão importante em uma sociedade que hoje, valoriza muito a capacidade de obter conhecimento. O fato é que estamos diante de um quadro que muitos classificam como “era da informação” e o Brasil terá que vencer grandes obstáculos para democratizar esse uso e conseguir introduzir a maior parte da população a uma oportunidade não só de acesso aos meios de informação em massa mas a uma oportunidade de adaptar-se as novas exigências do mercado de trabalho que está passando por mudanças para adaptar-se a nova realidade em que a informática está cada vez mais presente.
Estamos constantemente observando o surgimento de novas funções como: Webdesigner, Webmasters, WebDevelopher, analista de segurança de rede de computadores, etc. Esse quadro dinâmico do surgimento de novas profissões poderia ser um momento de alegria para milhões de desempregados, porém o aumento da informatização dos setores está mudando radicalmente o perfil dos profissionais e muitas funções estão simplesmente desaparecendo ou se modernizando de tal forma em que muitos não conseguem adaptar-se e aumentam a cada dia a estatística do desemprego. Por exemplo: A Indústria devido a informatização e a robótica estão empregando cada vez menos e na maioria dos casos onde o setor foi modernizado, exige-se uma maior qualificação, conseqüentemente muitos trabalhadores são excluídos nesse processo.
Segundo a revista Nova escola:
“Quem não souber se movimentar na Internet ou achar que possuir bom conhecimentos é decorar informação terá dificuldades em conseguir até empregos modestos. 2”
O que então o Governo e/ou a Sociedade poderiam fazer para minimizar esse quadro? Talvez o Governo poderia iniciar grandes obras e empregar uma grande quantidade de trabalhadores cuja mão de obra é barata e sem qualificação. Dar subsídios para criar indústrias “do modelo antigo”, semelhante as da Era da Industrialização? Será que o problema estaria resolvido?
O problema é muito maior, não basta apenas aparecer com soluções rápidas e paleativas, existe todo um cenário sistêmico e grave atrás dessas transformações, que é um fenônemo mundial.
“Que destino busca a nossa sociedade e como há de alcança-lo? Com muita freqüência encontramos lições do que não fazer nas cidades, onde a maior parte dos funcionários, submersos em uma inundação de problemas, tentam se arranjar dando-lhes nomes e resolvendo-os um a um. Se estiverem às voltas com congestionamentos, a resposta é alargar as ruas, construir anéis rodoviários e estacionamentos. Criminalidade? Penitenciárias para os bandidos. Poluição? Regulem-se as emissões. Analfabetismo? Padrões mais rígidos. Lixo? Eleve-se o valor das multas. Sem teto? Construam-se albergues e, se não der certo, cadeia para os vadios. Verbas insuficientes para custear todas essas prioridades rivais? Aumentem-se os impostos ou imponha-se a mais dura austeridade. Eleitores descontentes? Jogue-se a culpa nos adversários políticos.3”.
Buscar soluções simplistas de resultado imediato, nem sempre resolve. Cito um fato interessante que apresenta um caso de solução simples, inicialmente eficiente, mas que trouxe uma série de conseqüências por não ter levado em considerações partes que compõem o sistema.
“Pense no que aconteceu em Bornéu na década de 1950. Para combater a maleita, que se disseminava entre os camponeses de Dayak, a Organização Mundial de Saúde apresentou uma solução simples e direta. Aparentemente, pulverizar DDT deu certo: os mosquitos morreram, a malária declinou. Porém, surgiu toda uma rede de efeitos colaterais em expansão (‘conseqüências em que não se pensou’, observa Garrett Hardin, ‘a existência das quais a gente nega enquanto for possível’). Os telhados das casas populares começaram a desabar, porque o DDT liquidou as pequenas vespas parasitas que antes controlavam as lagartas que se alimentavam do sapê. O governo colonial providenciou folhas de metal para cobrir as casas, mas as chuvas tropicais transformavam os novos telhados em tambores que não deixavam ninguém dormir. Entrementes, os insetos envenenados com DDT iam sendo devorados pelas lagartixas que, por sua vez, serviam de repasto para gatos. Invisivelmente, o DDT se constituiu em uma cadeia alimentar que passou a mata-los. Sem eles, os ratos se multiplicaram. Ameaçada com surtos potenciais de tifo e peste silvestre que ela mesma criara, a Organização Mundial de Saúde se viu obrigada a lançar de Pará-quedas quatorze mil gatos vivos sobre Bornéu. Foi a Operação Lança-Gatos, uma das missões mais esdrúxulas da Real Força Aérea Britânica. (p. 269)”
No trecho acima o autor narra que ao criar uma solução aparentemente simples como aplicar veneno para matar os mosquitos e inicialmente resolveu, porém...
O problema a exclusão digital é complexo, difícil imaginar uma forma de qualificar/requalificar tantos trabalhadores. Deverá então existir uma ação integrada e contínua de diversos setores da sociedade para enfrentar esse novo problema: “o excluído digital”, que agrava ainda mais os problemas sociais.
Segundo o Governo Federal, em seu Relatório sobre a Inclusão Digital - OFICINA PARA A INCLUSÃO DIGITAL, Publicação – 18/05/2001 15:08:03 - Plenária Final – 17/05/2001 - Premissas Gerais sobre Inclusão Digita: “1. A exclusão digital aprofunda a exclusão sócio-econômica.4”.
Esse mesmo documento assegura:
“3. A toda a população deve ser garantido o direito de acesso ao mundo digital, tanto no âmbito técnico/físico (sensibilização, contato e uso básico) quanto intelectual (educação, formação, geração de conhecimento, participação e criação).”
(...)
“14. A inclusão Digital deve ser parte essencial do processo de escolarização, podendo prosseguir através de instâncias de educação continuada.”
Garantir uma oportunidade de inclusão digital, principalmente na rede de ensino é importante para que o cidadão tenha seus direitos de igualdades respeitados, segundo a Constituição da República Federativa do Brasil:
“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. 5“
Em paralelo a esse fenômeno da Inclusão Digital, surge também o “Analfabeto Digital”, que em muitos casos não são indivíduos distantes do acesso a tecnologia mas por diversas situações acabam em negar esse advento como se simplesmente a informática não fosse fundamental para a sua vida.
A verdade é que tanto o excluído quanto ao analfabeto digital terão muitas dificuldades nessa sociedade da informação em que cada vez mais é valorizado a capacidade intelectual e a de obter informação e transforma-la em conhecimento.
“Não há futuro para o analfabeto digital. Até porque se redefine o analfabetismo: dominar os códigos das redes eletrônicas é tão importante como até agora tem sido saber ler e escrever.6”
Buscar informação, obter conhecimentos, para isso deve-se sempre levar em consideração uma palavra importante: conectividade. Onde com o meu notebook durante uma aula posso está ligado a internet e assistir um documentário histórico, um fato que está acontecendo do outro lado do mundo, de forma on-line ou entregar/receber trabalhos da minha empresa, tudo isso ao mesmo tempo, ao clicar do mouse.
Nesse ciberespaço o homem do Século XXI sentirar-se em casa e sua casa será uma pequena representação do mundo e o mundo uma pequena parte de sua casa.
Ao encerrar a Introdução, cito a música do autor Gilberto Gil que de forma poética apresenta essa nova forma de vivenciar o mundo.
“PELA INTERNET
Gilberto Gil
1996
Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé
Um barco que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois de um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer
Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut
De Connecticut acessar
O chefe da Macmilícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus pra atacar programas no Japão
Eu quero entrar na rede pra contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na praça Onze tem um vídeopôquer para se jogar7 “
Publicado no site: O Melhor da Web em 14/03/2009
Código do Texto: 24